Inexistência

Desde que deixei
ao longe
as montanhas
de minhas manhãs,
a essência primitiva
de versos adormecidos,
deixou de existir
em mim
a luz plena
de um horizonte
por conquistar.

Sem os sonhos primeiros,
fui me desabando
pelos abismos
de curvas sombrias,
que me seduziram
na poeira insana
de dias medíocres.

Cabisbaixo,
fechei os ollhos
para o nada
do velho mundo,
trêmulo, vazio e
sem poesia.

Desde então…
deixei de existir…

João Júlio da Silva (30/03/2014)

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Noturno

Os estalos da noite
fazem de minha mente
um porão de
fantasmas
acorrentados
em suas sombras.

A cada ruído,
vislumbro passos
vagando
pela penumbra
de meus corredores
frios e sem saída.

O mais inaudível
som noturno
cresce em mim
e faz eco
nos labirintos obscuros
de meus neurônios.

As paredes sombrias
e disformes
de minha demência
gritam
o silêncio caiado
de inabitadas sepulturas.

Sinto o pulsar torturante
da escuridão em mim.
E saio a arrastar
pesadas correntes
noite adentro…
noite afora…

 

Tensão

Saltei os escombros dos dias
e me deparei com criaturas medonhas
aterrorizando a paz cabisbaixa
da humanidade.

O tempo estava efervescente
no vandalismo mascarado de
seres anônimos e acéfalos.

Pelas ruas tensas, as marcas criminosas
de vermes fascistas ainda escorriam
pelo esgoto obscuro de sua
demência assassina.

No ar, era sufocante o odor da
podridão golpista contra
o respirar da democracia.

A escuridão das pessoas me fez sombrio…
Trêmulo, em desespero,
busquei um raio de luz que me indicasse
o amanhecer de um novo caminhar.

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Muito além

Leva-me para as alturas gerais de Minas,
onde eu possa encontrar
o prelúdio do voo
de minha alma cigana.

Leva-me para os fundos dos quintais
de minha infância, onde deixei as sementes
de meus sonhos telúricos
espalhadas entre brincadeiras de criança.

Leva-me para as estradas
de minhas primeiras aventuras,
onde deixei as pegadas iniciais
de uma caminhada
além das montanhas
de meus pensamentos
sem fronteiras.

Leva-me muito além da liberdade de voar…

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Arena de rinha humana

ESTE TEXTO É DE 11 DE MARÇO DE 2012, MAS SERVE PARA OS DIAS ATUAIS

João Júlio da Silva
Acredito que toda pessoa, com um mínimo de bom senso, seja contra qualquer tipo de violência.
E sendo assim, sou contrário até a lutas corpóreas que são recheadas de golpes violentos. Para mim, qualquer tipo de luta passa bem longe do que seja esporte.
Penso que as lutas não deveriam fazer parte dos jogos olímpicos. Esse tipo de combate é a negação da grandiosidade do que significa o esporte.
Estou tratando do tema porque dias atrás, ao dar uma olhadela na televisão, dei de cara com uma luta que é a sensação do momento, a tal de MMA (Mixed Martial Arts ou ainda Artes Marciais Mistas). O “espetáculo” foi assustador, os lutadores estavam banhados em sangue, enquanto se digladiavam. A cena é o que há de mais primitivo, troglodita e animalesco. Vale tudo mesmo, pior que briga de rua. Dizem que a luta tem regras, mas nada justifica o banho de sangue. Nem os animais irracionais chegam a tanto.
Onde querem chegar com tamanha violência?Até a toda poderosa, a Vênus platinada, entrou nessa. Voltou o tempo da barbárie. Ao ver aquela imagem de “selvagens” praticando o que chamam de “esporte”, pensei em tratar do assunto aqui. Mas, fui adiando até que na última segunda-feira li no jornal “Folha de S. Paulo’ um artigo de autoria do advogado e deputado federal José Mentor (PT-SP), intitulado “Proibir o MMA na televisão”.
Acredito que muitos concordam com ele, outros não, e tem aqueles que discordam apenas porque ele é parlamentar petista, uma bobagem, pois o que vale é o debate.
Segundo o artigo, objetivo é “proibir o televisionamento de lutas agressivas e brutais que banalizam e propagandeiam a violência pela violência, sem qualquer outra mensagem, pela TV, que é uma concessão estatal”. Mentor disse que “basta assistir a um único embate para ver a brutalidade e a contundência dos golpes, desde pontapés e joelhadas na cabeça até cotoveladas no rosto, chaves de braço e ‘mata-leões’ (chaves no pescoço)”.

mma

Ele lembra que “em dezembro, o brasileiro Rodrigo Minotauro quebrou o braço e teve de passar por cirurgia para colocar 16 pinos metálicos. Em outra apresentação recente, bastaram alguns segundos para o ‘vencedor’ derrotar o adversário com dois únicos golpes Há cenas de sangue jorrando longe após cotoveladas na boca e no nariz do oponente -que caiu, tremendo e com espasmos”.
Mentor lembrou de outras brutalidades. “No Brasil, rinhas de galo e de canário são proibidas legalmente. Há cidades, como São Paulo, por exemplo, que não permitem rodeios, porque ferem e machucam animais. Mas lutar MMA que maltrata, fere, machuca, lesiona, sangra o ser humano, pode! Rinha humana pode!”
Ainda de acordo com Mentor, “em Nova York, desde 1997 são proibidas competições e outras atividades do MMA. Na França, elas também já foram proibidas. No Canadá, em 2010, a associação médica concluiu que o MMA provoca traumas e lesões que podem estar presentes pelo resto da vida do lutador. A entidade sugeriu que o esporte seja banido do Canadá, que é o segundo maior mercado do UFC (Ultimate Fighting Championship) no mundo. No Brasil, médicos e pesquisadores têm se manifestado contra a prática, apontando riscos tanto de lesões, algumas permanentes, como de morte”.
Para Mentor, “a veiculação das imagens dessas lutas pode incitar ainda mais a violência. São cenas que despertam instintos raivosos, maldosos. O UFC está avaliado em mais de US$ 1 bilhão e se tornou um fenômeno de mídia. São poucos ganhando muito com o sangue, com a desumanidade e com o destempero alheios”.
Seria a volta dos gladiadores? “Na Roma antiga, os gladiadores, escravizados, lutavam entre si até a morte. Galvão Bueno, nas chamadas da TV Globo, alardeia ‘os gladiadores do século 21?’”, disse.
Tem um bam-bam-bam da selvageria que está lançando “A Bíblia do MMA – As técnicas do maior lutador da atualidade”. Pior, tem igreja que já adotou a barbárie das lutas como forma de evangelização. Belo cristianismo esse, que transforma o púlpito em ringue de lutas. É o final dos tempos!

Luminosidade

João Júlio da Silva

Anjos fazem serenata em minha janela,
anunciam a luz de novos caminhos,
espalhando estrelas e derramando
em mim, sonhos por conquistar.

Sinto na alma o caminhar
de acordes salvadores,
que semeiam versos
sobre conquistas e vitórias.

Ouço o bater suave de asas
que abrem o horizonte para os
meus passos que anseiam pela
luminosidade redentora da vida.

Anjos… os anjos…

anjo1

 

 

 

Uma luz na solidão da noite

João Júlio da Silva

Finalmente a noite tão esperada por tantas pessoas chegara, não para ele, que detestava aquela data. Toda ano era a mesma sensação de vazio, uma angústia inexplicável, mas sentida como algo que dilacera até a alma. E dessa vez, o impacto era bem mais dolorido, pois a solidão estava impregnada em sua existência. Mas, depois de tudo o que ocorrera naquela noite, com certeza, sua vida não poderia ser mais a mesma.
Estava só, com olhar perdido em sombras na imensidão daquela casa, uma mansão que conseguiu adquirir depois de tantos anos de trabalho e bons negócios. Tinha muitos outros bens, pois era um homem rico. Nada veio de herança, mas de muitos anos de dedicação na construtora que um dia decidiu abrir com a cara e a coragem.
Apesar da riqueza adquirida, não era apegado aos bens materiais, estava sempre disposto a ajudar os mais necessitados. Vivia com muito conforto, mas era um homem sinceramente bem intencionado.
Mas, se obteve sucesso profissional, o mesmo não ocorreu no amor. Havia se separado da mulher há um ano, mais ou menos, e desde então, optou pela solidão, não queria se arriscar em um novo relacionamento como aquele. Aprendeu muito com os vinte e cinco anos de casamento e não queria viver tudo novamente. Passou bons e maus bocados com a esposa. Uma doce pessoa que se transformara numa megera com o passar do tempo. Resistiu até onde deu, depois não teve outro remédio senão a separação. Era muita desilusão.
O casal de filhos morava e estudava no Exterior. E pela primeira vez, os dois resolveram curtir o inverno europeu, ver de perto a tão decantada neve.
A ex-mulher não perdeu tempo, já estava com outro, um rapazinho com a metade de sua idade. Parecia feliz, ao menos não o atormentava mais, como nos primeiros meses após a separação. Rumores indicavam que o caso vinha de longa data.
Os pais já haviam falecido e sua única irmã se dedicava à própria família, morava numa fazenda nas distâncias das montanhas gerais de Minas, ficou por lá cuidando da vida.
Um homem em solidão vive remoendo o passado e pisando sem atenção no presente que leva ao futuro.
Estava assim, perdido em suas recordações, naquela noite que se iniciava. Num estalo, sem mais nem porque, resolveu sair de casa, queria respirar, mesmo com toda a poluição da metrópole.
Não queria ir com nenhum de seus carros importados e blindados. Queria liberdade. O calor estava intenso, chegava a sufocar. Colocou camiseta, bermuda, tênis e pegou a bicicleta que comprou no mês anterior numa loja de produtos importados. Na carteira, apenas os documentos e uma pequena quantia em dinheiro, pois em caso de algum imprevisto seria preciso pegar um táxi.
Assim, bem à vontade, fez o que nunca ousara antes, saiu pedalando pelo bairro em direção ao centro da cidade, já tomada pelas luzes noturnas. As ruas estavam movimentadas, luminosos piscavam no comércio ainda aberto, pois era época de compras.
Pedalava despreocupado entre carros velozes e ônibus lotados. As pessoas iam e vinham apressadas, carregadas de sacolas, como se viessem e fossem a lugar nenhum.
Como sempre ocorre naquela cidade, de repente começou a cair uma chuvinha miúda. Ele não se incomodou, muito pelo contrário, pois aquele frescor molhado era muito bem vindo.

estrela

A sensação de alívio não viera sozinha, junto com ela veio o perigo do asfalto escorregadio. E foi ao fazer a curva, dobrando uma esquina, que ocorreu o inesperado. A bicicleta derrapou e ficou descontrolada, numa fração de segundos percebeu que iria bater com a cabeça em um poste. Não tinha como escapar. Mas, do nada surgiu uma mão firme que parou e segurou a bicicleta, evitando assim uma queda que poderia até ser fatal.
Estava ali, bem à sua frente, quase olhos nos olhos, um mendigo. A primeira sensação foi de repulsa, queria se desvencilhar dele e seguir adiante, mas o olhar silencioso daquele homem o incomodou e ele ficou sem ação, permanecendo estático ali na beira da calçada. Sequer conseguiu ao menos balbuciar alguma palavra de agradecimento.  Logo o mendigo soltou a bicicleta, nada falou nem pediu, apenas lançou um último olhar e se foi debaixo da chuva miúda com um plástico sobre a cabeça.
Por uns instantes, o seguiu com os olhos, mas depois resolveu se ajeitar na bicicleta e pedalou com força.
Mais adiante, uma menina de rua, garotinha ainda, pediu uns trocados para comprar alguma coisa e levar para sua mãe na favela. Ele pensou em dizer que não tinha, mas sem nada falar decidiu dar o dinheiro que havia reservado para o táxi, afinal, poderia muito bem ir embora de bicicleta. A garota, toda feliz, saiu sorridente, correndo descalça entre as pessoas.
Continuou pedalando e pensando no mendigo, que evitou a sua queda e até a sua morte, o que poderia muito bem ter ocorrido caso viesse a cair e bater com a cabeça no poste.  Ao pensar no mendigo, se lembrou que não havia sentindo nenhum odor desagradável, aquele mendigo não cheirava mal; algo bem característico nessa classe de pessoas marginalizadas pela sociedade devido às condições de abandono sob marquises, viadutos e calçadas.
Quando pensou em fazer o retorno para voltar para casa, foi surpreendido por um grupo de jovens mal encarados, que fecharam um círculo ao seu redor e ordenaram, num linguajar marginal, que descesse da bicicleta, pois queriam levá-la. Aterrorizado, obedeceu sem nenhuma reação.
Em seguida, não antes de levar também o seu tênis, o grupo saiu em disparada entre os veículos. Ele ficou olhando e constatou que os ladrões não passavam de moleques bem crescidos. Foi aí que percebeu o quanto fora imprudente ao decidir sair pedalando na noite em uma bicicleta importada. Seria impossível não chamar a atenção. Aquela aventura só poderia terminar daquela maneira devido ao seu próprio descuido.
Ainda no local do infortúnio, viu o carro se aproximando e deu um sinal com a mão. Quando o táxi encostou, se lembrou que tinha dado o dinheiro para a menina de rua. Naquele momento, com a cabeça quente, com os pensamentos se chocando, não vislumbrou outra saída a não ser dispensar o motorista e seguir a pé, mesmo descalço, como aquela garotinha.
Bem que poderia deixar para pagar quando chegasse até sua casa, mas com a mente em estado de ebulição, nem pensou nessa possibilidade.
E debaixo daquela chuvinha miúda começou a fazer o percurso de volta. Seria uma longa jornada. Pelo caminho, as cenas de tudo o que ocorreu naquela noite se repetiam em sua memória, mas a imagem que mais se destacava era a do mendigo.
Depois de um bom tempo, embora muito cansado, com a sola dos pés ardendo, conseguiu chegar até sua casa. Não fosse aquela chuvinha miúda, com certeza, não teria ido até o fim. Entrou, sentou-se no banco do jardim e fitou os olhos no céu. Estaria delirando ou teria mesmo visto uma grande estrela? Ela não lhe pareceu desconhecida. Não era imaginação, ela estava mesmo lá no céu, entre tantas nuvens, naquela noite chuvosa.
Estava extasiado com a visão quando os fogos de artifício começaram a espocar por todos os cantos da cidade e a colorir o céu com suas cores brilhantes. Sim, já era meia-noite e havia chegado o Natal.
Não estava se sentindo mais só, ele não parava de se lembrar de tudo o que ocorreu naquela noite, do passeio, do mendigo, da menina, dos ladrões e da caminhada de volta.  Cessados os fogos de artifício, tentou ainda ver a estrela, mas nada, nuvens agora escuras cobriam todo o céu. Levantou-se do banco, olhou para todos os lados do firmamento, só escuridão.
Entrou, tomou um bom banho, nada quis comer, se deitou e continuou com seus pensamentos em turbilhão, o mendigo não lhe saía da cabeça. Aquele olhar parecia ainda direcionado para ele.
Foi à janela do quarto. Queria tentar ver a estrela uma vez mais, infelizmente não foi possível, o céu estava todo escuro, mas como num milagre, pôde sentir a sua luz brilhar dentro de si. Uma leveza nunca experimentada o tomou por completo.
Estava convicto, não era delírio, ele havia recebido a visita daquela grande estrela naquela noite de Natal. Havia luz em seu olhar!