Contos

Pensando uma história

João Júlio da Silva
O homem vinha caminhando pensativo naquele início de dia tomado por uma neblina espessa. Nenhuma imagem era nítida, ele avistava apenas vultos por onde passava. Estava assim, quando foi tomado por uma solidão jamais sentida, parecia a própria solidão em pessoa, carente de um aperto de mão de um amigo, de um abraço e um beijo da mulher amada e de um gesto mínimo de carinho ao seu redor. O vazio crescia conforme
caminhava.
De repente, se sentiu invadido por um sentimento que misturava angústia, tristeza e dor.
Nuvens sombrias pairavam sobre ele quando percebeu que estava andando encurvado como se carregasse às costas todo o peso do mundo. Seus passos pareciam derramar cinzas por um caminho que se fazia melancólico por tantos tropeços.neblina
Ficou preocupado. O que estaria acontecendo? Estava se sentindo uma outra pessoa, um desconhecido para ele mesmo, seu verdadeiro eu parecia ter morrido. Ou teria descoberto a sua verdadeira essência?
A nebulosidade fez com que não percebesse que já estava na rua de sua casa. Ao se aproximar do local onde estaria a sua residência, não a encontrou. Estavam ali as casas da esquerda e da direita, mas a sua havia desaparecido. Nem o terreno vazio havia, era como se as casas vizinhas tivessem espremido tanto a sua que ela teria saltado fora dali. Não parecia que estivesse louco, firmou a vista em meio à neblina e pôde constatar que a sua casa, realmente, havia sumido da rua. Fechou e abriu os olhos várias vezes e nada, a imagem era a mesma, mostrando algo inusitado e incompreensível.
Foi nesse momento, quando o inexplicável confundia sua mente, que uma luz de uma cor sobrenatural clareou ao seu redor e dela surgiu um ser magnífico e cativante. A sua presença transmitia paz num silêncio que transbordava sabedoria. Pensou que se tratasse de um anjo, mas não identificou asa nenhuma como aquelas das imagens que conhecia. Na rapidez de um pensamento, a criatura o pegou pela mão e quando percebeu, já estava nas alturas, voando em sua companhia. Quis olhar para baixo na tentativa de localizar sua rua, mas ficou temeroso. Virou o rosto para a criatura a seu lado e, pelo brilho dos olhos, entendeu que ela consentia em seu desejo.
Então voltou os olhos para baixo, e sem compreender como, pôde avistar, das alturas, a sua rua. E lá estava a sua casa em seu devido lugar, como se nunca tivesse saído de lá. Mistério ou demência? Não importava qual o sentido de tudo aquilo, o que tinha certeza era que a casa que havia sumido instantes antes, agora estava lá. Mas, estaria mesmo voando nas alturas lado a lado com uma criatura luminosa ou era apenas uma imagem de sua mente já doentia? Estaria sonhando ou tendo um pesadelo? A dúvida foi respondida por um sentimento suave de estar flutuando em um espaço que parecia de uma outra dimensão de um universo paralelo ao nosso.
Não se importou para onde estava sendo levado, pois confiava no silêncio da criatura que o conduzia. Mergulhado numa paz nunca experimentada, olhou mais uma vez para baixo e avistou a sua casa, dessa vez com mais nitidez, pois a neblina já havia se dissipado.
Sem entender como conseguiu, viu a sua casa, como se estivesse bem próxima. Da cozinha ecoou uma voz amorosa.
– Acorda, amor! Já está na hora de ir para o trabalho!
Uma outra voz, infantil, chegou até seus ouvidos.
– Mamãe, o papai não está em nenhum cômodo da casa!
– Não sabia, pensei que estivesse debaixo das cobertas, então deve ter ido trabalhar mais cedo e não quis nos acordar.
– Não, ele não vai trabalhar sem antes ir até meu quarto e me dar um beijo.
Do alto de seu voo, viu o rostinho preocupado de sua filhinha. – Mamãe, o que teria acontecido?
Quando ela ia dizer algo, a porta começou a se abrir e as duas ficaram apreensivas.
Como se nada tivesse ocorrido, ele entrou assoviando na maior tranquilidade do mundo. E sem que elas entendessem, abriu a janela, olhou para o alto e deu uma piscadela. Então se trocou, beijou as duas e foi trabalhar com uma história na cabeça.

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Artimanha de garoto

João Júlio da Silva
O abacateiro era enorme e dava muitos frutos. Ficava no terreno de um senhor que não se importava que pegassem os abacates, de modo que, muitos usufruíam da frutífera árvore.
Em certa ocasião um garoto de uns dez anos estava tentando subir no abacateiro, quando chegou o dono do local, que morava na casa ao lado.
– Minha mãe mandou perguntar se o senhor não vende uns abacates para ela, disse meio apreensivo.
– Ora, pode levar. Você mesmo pega ou quer que eu apanhe?
– Pode deixar senhor, sou craque em subir em árvore.
– Sendo assim, então pode subir. Mas, cuidado para não cair, pois a árvore é bem alta.
E de galho em galho, como um ágil símio, foi parar lá na copa do abacateiro, entre as folhas. Pula daqui, pula de lá, depois de um bom tempo ele desceu sem fruto nenhum.
– Não vai levar nada?
– Ainda não estão bons para comer, estão duros.
– Mas, pode apanhar assim mesmo que depois ficam bons.
– É que era para hoje.
Sem mais nem porquês, o menino saiu correndo.
Depois de alguns dias, lá estava o garoto de novo. Parecia mais descontraído.
– O senhor vende uns abacates?
– Já disse que pode levar.
O garoto subiu e num instante já estava lá nas alturas, pendurava nos galhos como um exímio trapezista de circo com sua arte de se jogar pelos ares. Passado um tempo, desceu de mãos vazias.
– Não achou nem um bom?
– Até que achei alguns, mas esqueci de trazer uma sacola.
– Eu posso arrumar um saco de plástico.
– Não precisa não senhor.
E rapidamente passou por baixo da cerca e foi embora.
Passados mais alguns dias, o menino voltou. Dessa vez, com um saquinho de plástico nas mãos e um sorriso no rosto.
– O senhor me dá alguns abacates?abacateiro
– Claro, pode pegar. Hoje deve ter muitos que já estão no ponto.
Com sua agilidade bem conhecida, foi de galho em galho pelas alturas da árvore.
Dessa vez, parecia bem mais à vontade, pois até arriscava assoviar uma melodia qualquer. Mais uma vez, desceu sem nada.
– E agora, por que não vai levar fruto nenhum?
– É que me esqueci, tenho que ir primeiro comprar açúcar para minha mãe.
Saiu numa correria, como se estivesse muito atrasado e morasse muito longe, num bairro distante da cidade.
No dia seguinte, lá estava ele mais uma vez.
– Hoje você vai levar os abacates?
– Vou, trouxe até uma sacola bem grande.
E foi árvore acima, como quem já estava familiarizado com os seus galhos.
Demorou bem mais que das outras vezes.
Com o passar dos dias, passava mais tempo naquela artimanha.
Então resolveu descer, outra vez sem nada nas mãos.
– Está difícil de apanhar? Quer que eu mesmo pegue alguns para você levar? Sua mãe deve estar pensando que eu não quero dar os abacates.
– Precisa não. Minha mãe pensa isso não senhor.
Como nos outros dias, foi embora sem levar nada, mas com uma satisfação infantil em seu olhar.
No outro dia, o senhor parecia já esperar pelo menino. Estava ficando encabulado com a sua mania de ir buscar abacates e depois ir embora sem nada levar.
O garoto chegou todo alegre, parecia esperar por aquele momento, e numa pressa de menino aventureiro foi logo dizendo:
– Posso subir na árvore?
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Muito além dos tapetes palacianos

João Júlio da Silva
O sol estava escaldante naquele meio-dia e um cidadão de rua descansava à sombra de uma casa, sentado na calçada. Ao seu lado, o filho ajeitava o material reciclável que teimava em cair do carrinho de madeira. Carrinho não, aquilo era mesmo uma carroça. Essa gente tem a vida dura. Mas, era assim que aqueles dois ganhavam as migalhas de cada dia para manter acesa a luz da sobrevivência.
O filho tinha uns 14 anos e morava com o pai num barraco de uma favela da cidade. Não sabia o que era ter mãe, segundo conta seu pai, homem de uns 40 anos de sofrimento às costas, ela morrera assim que ele nasceu. Foi criado pela avó, morta há um ano.
Viviam os dois assim, suando as migalhas que lhe cabiam, catando todo o tipo de material, puxando carroça pelas ruas do lugar. O pai estava sempre tristonho, não gostava de ver o filho ali naquela labuta, fazendo aquele tipo de serviço. Sonhava poder um dia dar condições para ele estudar, mas os anos iam se passando e nada da vida melhorar. Estava arrependido por não ter estudado quando ainda morava numa cidadezinha do interior. Agora, puxa carroça como um burro qualquer. Pois é exatamente isso que faz dia após dia, como um animal se estrebuchando de tanto fazer força para garantir alguns trocados. Aprendeu a ler e escrever, mas não passou disso, não teve condições para ir além, assim ficou à margem, excluído pela velocidade tecnológica do mundo atual.
A tristeza no rosto estampava a desilusão de um farrapo humano num mundo mesquinho e injusto. Às vezes, ousava viajar com os pensamentos e imaginava uma vida mais digna. Logo seus olhos ameaçavam lacrimejar e então despertava para a sua dura realidade.
Estavam os dois ali, no horário do almoço que nunca tinham, pois só iriam comer alguma coisa requentada no barraco, já na entrada da noite.carrocinha
Enquanto tentava ganhar mais forças para terminar o dia, derramado de cansaço naquela calçada, observava as pessoas que passavam pela rua. O filho estava amarrando alguns papelões no carrinho, quando ele decidiu se levantar para tocar a vida adiante, ou seja, puxar a vida ladeira acima com o seu corpo queimado pelo sol e já estropiado pelo peso da carga que puxa todos os dias. Ao se levantar da calçada, viu se aproximar um homem bem trajado e todo sorridente. Ele lhe entregou um papel com uma foto e um número, disse ser candidato nas próximas eleições e que esperava contar com o seu voto.
O homem, com certeza, não o conhecia, mas o cidadão de rua sabia muito bem de quem se tratava. Era o dono de uma empresa que tinha a fama de explorar os seus funcionários. Se tratava de um homem de nariz empinado que, em campanha eleitoral, se transformara em outra pessoa, um ser aparentemente agradável, embora falso. Bom de bico, estava empenhado em conseguir um cargo político.
Para o cidadão de rua gente assim deita e rola com o dinheiro público. Sujeitos como aquele só buscam altos salários, valores absurdos e incompatíveis pelo que nada fazem em seus inúteis gabinetes. Para o cidadão de rua, os homens públicos indignos pensam exclusivamente em suas contas bancárias.
O homem deixou o santinho em suas mãos e se foi, atravessou a rua com os passos de alguém que se sente como se fosse o dono do mundo, rumo aos seus cifrões preciosos.
Após aquela cena, o cidadão de rua voltou os olhos para si e teve muito orgulho da vida que levava, pois mesmo não tendo nem o mínimo suficiente para sobreviver como um ser humano, algo faz toda a diferença entre ele e aquele político desprezível, pois tem a honradez de contar apenas com o que lhe cabe, mesmo não tendo quase nada. Tomou fôlego, se posicionou na carroça, chamou o filho e seguiu na labuta de carregar o país às costas.
Enquanto políticos inescrupulosos arrasam cidades, Estados e país, o cidadão de rua e seu filho e muitos outros, uma multidão imensurável de farrapos humanos, continuam, honestamente, catando migalhas pelas ruas, rastejando pelas sarjetas. O cidadão de rua segue em frente, animalescamente puxando carroça dia após dia, muito além das urnas e dos tapetes palacianos.
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Abandono em tempo natalino

João Júlio da Silva
O trânsito naqueles dias estava muito intenso, pois já se aproximava o Natal e as pessoas buscavam, desesperadamente, comprar a felicidade exposta nas vitrines de um mundo tomado pelo consumismo desenfreado.
Um garoto, de mais ou menos onze anos de idade, estava com outros meninos em um semáforo de uma avenida, fazendo malabarismo por uns trocados de algum motorista sensibilizado por aquele apelo.
Estava apresentando o seu número quando viu em um carro um senhor já de certa idade com cabelo e barba de uma brancura bem artificial e com uma sufocante roupa vermelha em pleno verão. Sim, se tratava de Papai Noel.
Meio temeroso, se aproximou e iniciou uma breve conversa. “Olá Papai Noel! Muito trabalho?”. O velhote, aparentando um certo desconforto, disse que estava indo para mais um dia de trabalho em um shopping da cidade. “Lá vou eu fingir de alegre em mais um dia de batente”. O garoto tentou mostrar solidariedade. “Mas, pelo menos dá para faturar um bom dinheiro nessa época do ano. Fiquei sabendo que estão pagando uma nota preta para Papai Noel”. O homem deu um sorriso amarelo. “É, mas mal dá para pagar as contas acumuladas. E depois, o que fazer com apenas uma aposentadoria miserável?” Quando o garoto ia tentar alguma palavra de conforto, o semáforo ficou verde e o carro deu uma arrancada brusca e foi embora.bolinha
O Papai Noel, que não deu nem uma moedinha, deixou o garoto pensativo ao longo daquele dia. “Por que o mundo é tão duro para tantas pessoas?” Assim que o sinal se fechava, lá estava ele apresentando o seu número. Suas três bolinhas deslizavam de suas mãos para o alto, enquanto as pessoas fechavam o vidro dos carros cheios de presentes de Natal.
Numa de suas apresentações, perdeu a noção do tempo e não percebeu que o sinal já estava aberto. As buzinas dos veículos explodiam em seus ouvidos. Num ato de puro reflexo, saltou para a sarjeta para não ser atropelado. Na rapidez do movimento, uma bolinha caiu e rolou para debaixo dos carros. Quando o sinal ficou vermelho, percebeu que a bolinha havia sido estourada pelas rodas dos veículos. Ficou com ela nas mãos sem saber o que fazer. Para ele, não seria justo realizar o número com apenas duas bolinhas. Logo, um colega se aproximou e, num gesto solidário, ofereceu outra bola. “Eu te empresto uma, pois sempre carrego uma de reserva comigo”. O garoto sorriu e prometeu devolve-la depois.
Nos momentos em que os carros deslizavam pelo asfalto, ele ficava sentado na sarjeta, todo pensativo. E como menino cheio de esperança pensou que no ano novo precisava mudar de vida. Sentia que era preciso entrar em uma escola de qualquer jeito, mesmo sabendo que dependia do sorteio de vagas. Se não fosse sorteado novamente, como já havia acontecido em outros anos, deveria ir com sua mãe até os palácios das autoridades competentes para implorar por uma vaga na escola. Era preciso determinação, pois de nada iria adiantar ficar se lamentando e pedindo esmola para sempre na rua, tinha que fazer valer os seus direitos, pensava.
Ainda era uma criança, mas a crueldade do mundo lhe proporcionou um amadurecimento precoce. Não esperava por presentes de Papai Noel no Natal, pois tinha consciência de que tudo era fantasia. A realidade dura dos seus dias estampava bem em seu rosto o que era a sua vida.
Logo o dia de Natal chegaria e todas aquelas pessoas que passavam em seus carros velozes estariam trocando presentes entre abraços e beijos, tomadas pelo tão falado espírito natalino. Depois iriam deliciar a tão esperada e farta ceia natalina. A bebedeira traria uma falsa alegria para os que buscam um motivo qualquer para festejar. A grande maioria nem se lembraria da verdadeira razão do Natal. Cabisbaixo, sentado na sarjeta, uma amargura tomou o seu coração. Nesse momento, o garoto pensou em sua mãe doente e em seus quatro irmãozinhos lá no barraco da favela, sem quase nada para comer. Pai? Nunca soube o que era ter um. Tentou impedir, mas não conseguiu, duas lágrimas rolaram de seus olhinhos tristes. Estava assim, quando chegou um fiscal municipal e o colocou para correr.

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