Vermificando

VERMIFICANDO
(João Júlio da Silva)
 
Machuca…
sangra…
Como bandeira perdendo a cor,
estirada ao tempo,
acreditando na brisa
que lhe rouba a alma.
A ferida engole o abismo
e o ridículo se apossa
de mediocridades.
O espelho é nítido,
grita o pus que sufoca
gestos mórbidos
que clamam por liberdade.
É como seres em transe,
ao deus-dará…
nas trevas da insanidade
de bestas sem rumo…
à beira de sete palmos
de todos os vermes.
 varal

Longe

João Júlio da Silva

Que maravilha seria
poder mergulhar
em suas águas poéticas,
descobrir a essência
de seus versos
e sentir na pele
o líquido prazer
de sua beleza!

Seria como uma viagem de amor
ao atravessar as fronteiras
de um mundo impossível;
um derramar de poemas
por semear
em dias sorridentes,
que me acenam
a cada imagem
da infinita distância
que nos separa.

Mas vislumbro ao longe
a bandeira de seu reino
a bailar na leveza do vento,
que me envolve sorrateiro,
sussurrando  segredos
da luminosidade de seu sorriso,
que encanta e frutifica paixão
pelos canteiros solitários
do deslumbrado horizonte
da saudade que sufoca,
mas liberta os sonhos.

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Praticando cidadania

João Júlio da Silva
Com a missão de enfocar, neste espaço, temas referentes ao cotidiano, dou a largada tratando de maneira geral o que vem a ser cidadania, algo que deveria ser uma prática natural de todos.
Cidadania é um termo já muito gasto por tanto uso, mas nem sempre compreendido. Meu amigo “Aurélio” dá a sua explicação: “Qualidade ou estado de cidadão, que é o indivíduo no gozo dos direitos civis e políticos de um Estado, ou no desempenho de seus deveres para com este”.
Para praticar a cidadania no seu mais amplo sentido, como integrante de um Estado, tem que se contar com a real condição para usufruir dos direitos que dão acesso à participação na vida social e política. Tomando isso por base, dá para notar que está faltando cidadão por aí.
Ter cidadania é ter consciência, principalmente, dos direitos políticos que permitem uma atuação direta na eleição de um governante e até em sua administração. Todos deveriam tomar essa atitude cidadã e política que faz mover, de forma democrática, as engrenagens da máquina pública.
E ninguém se difere diante da lei, pois diz a Constituição Federal, em seu artigo 5º, que “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança  e à propriedade”. Em se tratando dos direitos e das garantias fundamentais de todo cidadão, a Carta Magna contém belos artigos.
A origem da palavra cidadania está no latim, civitas, que quer dizer cidade. O correlato mais próximo em grego é politikos, aquele que habita a cidade. Cidadania para os gregos era o direito da pessoa de participar das decisões nos destinos da cidade através de uma reunião pública. Daí surgiu a tão decantada democracia grega. E hoje temos a nossa democracia verde-amarela.
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O indivíduo é considerado uma pessoa quando passa a ter consciência de si próprio, do outro e do mundo em suas relações sociais. A pessoa é o indivíduo consciente. Mas é preciso ir além da consciência: agir faz toda a diferença. A pessoa se torna cidadão quando passa a intervir na realidade em que vive, modificando as estruturas sociais ao fazer uso dos seus direitos, cumprindo seu papel e sua função social. Para que isso se torne realidade, há necessidade da modificação de comportamento, só assim os direitos do cidadão passam a ser exercidos. Sem ação, ninguém se faz cidadão.
Neste país ainda minúsculo, alegar que se tem direito não diz muito; é essencial que se tenha acesso a ele. Pela Constituição, o povo tem direito a esse acesso, mas na prática não é bem assim. Daí, tanta impunidade, corrupção e má distribuição de renda.
Por isso, há necessidade da ação para que se façam valer os direitos constitucionais que garantem o pleno exercício da cidadania. No Brasil, para que alguém seja considerado cidadão é necessário, antes de tudo, lutar para ter realmente essa condição, pois a lei não basta para isso.
Não se deve ignorar o que já foi conquistado, mas ainda há muito por fazer. Mazelas inumeráveis proliferam por este país afora. Em cada esquina há gritos clamando por vida digna para o ser humano.
Pela garantia de sua permanência é que a cidadania está sempre em obras, a cada dia sua construção se faz necessária. Por sua existência, muitos continuam lutando por mais direitos e garantias, enfrentando forças dominantes que não abrem mão de privilégios, opressão e injustiças. Essa dominação egoísta nega a cidadania plena aos que continuam excluídos à margem da sociedade.
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Sem cidadania, os marginalizados continuarão fora da vida social, em condições de inferioridade em sua comunidade.
O cidadão consciente deve tomar posse de seus direitos e também dos deveres. Muitos por aí só sabem reivindicar os direitos. Cidadania consiste também em responsabilidade perante a sociedade, a nação e o Estado.
E para que a máquina funcione, todos devem contribuir para que sua engrenagem não falhe, por mais simples que seja determinada função. Se cada um assumir a sua responsabilidade no contexto social, tudo contribuirá para o bem comum. Assim, será possível conquistar a tão almejada justiça social, e o país poderá contar com verdadeiros cidadãos, cônscios de seus direitos e deveres, vivendo na prática a plena cidadania em um País realmente maiúsculo.

João Júlio da Silva é jornalista e
membro da PIB em São José dos Campos

(texto publicado na revista FelizCidade, à página 9, edição de nº 3, em maio de 2008, de São José dos Campos  –seria o primeiro artigo de uma série, mas ficou apenas neste, primeiro e único, por “censura” da PIB (Primeira Igreja Batista)

Existência

João Júlio da Silva
O desapego
se tornou algo tão libertário
que a cada passo
ia soltando as amarras
do corpo pelo caminho,
até que um dia
se desapegou de vez
e sua essência saiu a bailar
com a leveza etérea
a sorrir liberdade
na imensidão poética
de seus sonhos
por semear.
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Absurdos

* João Júlio da Silva

Como folha solitária
levada pelo vento,
drummondiei-me
de poesia e sai
pessoando
versos por tabacarias,
sarjetas,
pedras no caminho,
esquinas, becos,
labirintos e baús de
quintanares.
Ceciliei-me
de estrela
e derramei luz
da inconfidência
por cordilheiras
nerudianas.
Onde hasteei
bandeira
em dias
de absurdos.

Dança

Vejo ao meu redor
árvores dançando
de mãos dadas
numa ciranda verde
que vou criando
pelas muralhas rudes
de meus olhos tristes.
Invento uma dança
sem fim que vou
espalhando
com passos maltrapilhos
por sarjetas ébrias
e cinzentas.

* João Júlio da Silva